Primavera em Londres #12 #13

PRIMAVERA EM LONDRES, por Daniela Marques

Na última semana em que escrevi um relato (a semana 11) contei sobre a minha ansiedade com a passagem do tempo, com ter chegado na metade do meu tempo aqui. De lá pra cá, continuo struggling, sofrendo com essa questão.

Márcia Tiburi, em seu texto “Subjetividade como capital na era do capitalismo mental”, publicado na revista Cult, diz que “a ética ligada ao espírito do capitalismo implica uma posição, a da avareza, pela qual tudo deve ser reduzido a dinheiro (…) Isso significa que tudo deve encontrar seu estado de liquidez”.

Achei interessante ler isso, porque em um dia desses escrevi no aplicativo de notas do celular: “querer acertar + não poder errar, tomar decisões mais ‘lucrativas’”. O investimento que fiz para estar aqui foi alto (não só em termos financeiros, mas também em termos subjetivos) e é difícil abrir mão da sensação de que preciso fazer isso “valer a pena”, ou seja, de que essa experiência deve “encontrar seu estado de liquidez”.

bell hooks diz que o primeiro inimigo a ser combatido é o inimigo interno. Certamente é um dos mais difíceis de combater. Como calar uma pulsão inconsciente que habita a minha subjetividade dizendo que eu estou em dívida – não com a CAPES, com o PPG ou sei lá o quê – mas comigo mesma? Como calar essa voz dentro de mim que me atrapalha o sono e me diz que eu deveria estar fazendo mais? É confuso, eu sei que essa voz, no fundo, quer me proteger de algo. De uma possível frustração futura que talvez venha a me acometer dizendo que “eu poderia ter aproveitado mais”.

Jaquelyne, minha terapeuta, disse que esse “mais” é complicado, porque não tem borda, ou seja, não tem limite. Sempre há mais a se fazer e, com isso, sempre há algo para estar em falta com. Esse incômodo, ao mesmo tempo, me movimenta e me paralisa.

Na semana 12, mesmo com níveis baixos de energia, devido à ansiedade e à falta de sono, me esforcei para agradar esse patrão interno. Fui aos ateliês, fui a exposições, fiz registros na exposição “Mosaic of Becoming”, da qual fiz parte… fiz isso e aquilo, completei tarefas.

No dia que fui à Nunnery Gallery, onde era a exposição “Mosaic of Becoming”, estava muito mal, cansada, sem energia. Tomei o meu tempo em casa para meditar e resolver algumas tarefas domésticas e supus ter feito “as pazes” com o fato de que chegaria atrasada ao evento que aconteceria lá.

Saí de casa e, pelas minhas contas, chegaria lá uma meia hora atrasada. No meio do caminho, os barulhos do metrô estavam me deixando doida e eu pensei que melhor seria ir em uma exposição que eu estava com vontade (e que seria mais perto para chegar, talvez menos desgastante), desci do metrô impulsivamente. Assim que desci, percebi que me arrependi dessa decisão, afinal, aquele era o último dia da exposição e eu não queria perder a oportunidade de fazer registros/ter outras trocas no contexto desse evento.

Foi um dia muito estranho. Enquanto eu pensava no que fazer, em como retomar o caminho, senti a vida passando na minha frente em meio aos barulhos, o vento, o subterrâneo, o trânsito de trens e pessoas ao meu redor. Eu me senti realmente perdida dentro de mim mesma. Mesmo assim, eu fui. Era uma quinta-feira de uma semana bem difícil. Enquanto tentava multi-task e fazer algo que (achava que) precisava no celular dentro do metrô, acabei perdendo a estação em que tinha que descer. Mais uma vez, um trânsito de voltar para o rumo certo.

Finalmente, cheguei lá. O evento tinha acabado de finalizar. Era um encontro para visitar os ateliês de alguns artistas que trabalhavam no complexo de ateliês ao lado da galeria. E eu perdi. Imaginem a minha sensação… Enfim, gravei um vídeo lá (que ainda não postei), falando sobre a obra que expus na galeria. Ok, patrão interno, mission (kind of) accomplished.

Na sexta-feira, eu estava um pouco melhor e foi revigorante visitar as exposições “Heart to Heart” de Yin Xiuzhen e “Threads of Life” de Chiharu Shiota, na Hayward Gallery.

No mesmo dia, viajamos para Lancaster de trem para visitar os pais de Cal e, enquanto esperávamos o trem atrasado, descobri (por uma propaganda) que existe um museu em Birmingham com a máquina a vapor mais velha do mundo, o convite era para “See the mighty engines that helped drive the great Industrial Revolution”. Coloquei na minha lista (que só cresce) de coisas para fazer aqui.

Chegamos em Lancaster e foi bom muito estar em um lugar bucólico, perto da natureza. Em cochilo vespertino, sonhei com uma porta entreaberta, parecida com a da instalação de Chiharu (este trabalho me arrebatou e segue me convidando a abrir portas dentro e fora de mim!). No sonho, eu via um portal, com uma porta entreaberta, de um conjunto de duas portas de madeiras bem adornadas, em um cenário verde e bonito como o de onde eu estava. O sol batia com muita beleza nessa porta.

Antes de ver o trabalho de Chiharu, eu já vinha imaginando portas, me visualizando destrancando portas, na tentativa de criar um cenário relaxante para dormir. Em Marrocos, eu comprei uma chave muito bonita para compor o meu altar.

O norte da Inglaterra, para mim, é bem a imagem que se faz de uma Inglaterra medieval dos filmes. Antigo, bucólico, levemente sinistro e calmo. Eu gostei de lá.

Voltamos para Londres na segunda-feira, era um “bank holiday”, como eles chamam os feriados por aqui. Foi uma semana mais tranquila, a semana 13, algo em mim havia se apaziguado.

Nessa semana, devolvi uma bicicleta que tinha comprado (e acabei não gostando) e comprei uma bicicleta do jeito que eu queria (uma speed). Fui ao seminário liderado pela professora Maria Walsh, e me permiti ir embora um pouco mais cedo porque não estava me sentindo tão bem.

Fui ao Imperial War Museum para uma “Special Talk” com Rebecca Newell, curadora do museu. Rebecca nos contou sobre as decisões curatoriais tomadas na exposição “Beauty and Destruction: Wartime London in Art” e sobre detalhes em torno das obras exibidas. Várias coisas que Rebecca disse sobre as obras, que retratam Londres durante a Segunda Guerra Mundial, me chamaram a atenção. Em especial, me chamou a atenção o fato de que, dos em torno 80 artistas comissionados em tempo integral para retratar a guerra, somente uma dessas pessoas era mulher, a artista Evelyn Dunbar. Segundo ela, porque Evelyn tinha uma postura beligerante e, talvez, contatos.

Também achei muito interessante o que Rebecca trouxe ao comentar sobre um cartaz da Transport for London presente na exposição. O cartaz diz que “Staggered hours reduce crowding”, um cartaz publicitário que faz referência às alterações nas escalas de trabalho para que fosse possível transportar as pessoas durante os ataques à cidade, evitando lotações. Rebecca comentou que “manter a moral” foi um dos aspectos essenciais priorizados pelo governo durante a segunda guerra. O que é um dos motivos para comissionar artistas, criando um aparato simbólico de referência para as pessoas daquele período. A intenção era manter a máquina ativa, as pessoas trabalhando, ou como os ingleses diriam “business as usual”.

Imagine que a sua cidade está sendo bombardeada e você está pegando metrô para ir trabalhar. Enfim, certamente é a realidade atual de muitos lugares no planeta. No entanto, me pergunto se os aparatos técnico-simbólicos desses lugares têm o mesmo finan$$iamento dos que existiam na Inglaterra durante a WWII para manter a “moral” de seu povo. Fiquei chocada ao descobrir que o governo fabricava até bonecos de soldados para as crianças daquele período que estavam em abrigos. Os esforços (e recursos empregados) para manter a adesão da população são, para mim, coisa de outro mundo. Camden Town, estação de metrô mais próxima da minha casa, foi um abrigo durante o “Blitz”, principal onda de ataques nazistas contra civis na Inglaterra. Hoje, a entrada da estação é apenas dois terços do que era antes desse ataque. Fez mais sentido pra mim a atmosfera pesada das estações de metrô depois que obtive essa informação.

Na sexta-feira, participei de uma sessão de “Becoming a Researcher” com a professora Allison Green (queridíssima!) e ela trouxe o conceito de hospitalidade para pensar práticas curatoriais. Ainda estou refletindo sobre as diferenças entre anfitriã e ser hóspede. Falamos sobre trocas justas. Mencionei Exu.

No fim de semana, fui a uma festa do dj Habib Funk. Lindo evento!
Segunda, hoje. Aquele patrão veio me visitar de novo. Vendo como faço para receber esse hóspede sem que ele tome conta da casa.