PRIMAVERA EM LONDRES, por Daniela Marques
As últimas semanas foram intensas no corpo, na mente e no coração. Trânsitos, acontecimentos, sensações e encontros que me distanciaram deste espaço de escrita. Como contar sobre o que se passou em três semanas? A proposta inicial era contar, semana a semana, sobre a minha experiência no doutorado sanduíche aqui em Londres. O que fazer com a escrita, como tecer uma narrativa, a partir desse intervalo?
Semana passada comecei a escrever sobre a minha viagem para Marrocos e, quando vi, já tinha escrito duas páginas e nem estava perto de terminar. Saí para algum compromisso e abandonei o texto.
Então, amigas, amigues e amigos que me lêem, retomo agora o texto abandonado e, encarando com honestidade a minha impossibilidade em relatar tudo, no nível de detalhamento que eu gostaria, escrevo o que quero, do jeito que consigo. Comecei esse texto pensando que ia fazer um relato de cada semana “passada em branco”, mas agora que já se amontoaram tantas, pego o texto pelo meio e vou inserindo os acontecimentos sem apego a essa cronologia, pois é o que parece fazer mais sentido.
Semanas 8-9-10
Na terceira semana da primavera aqui em Londres, minha oitava semana fora do Brasil, viajei para Marrocos. Foi uma jornada cheia de singularidades, a começar pela viagem de avião. Vi montanhas cobertas de neve e uma diversidade de paisagens bem diferentes das que já tinha visto voando pelo Brasil. Atravessando os 40 km que dividem o sul da Espanha do litoral norte de Marrocos, pude ver com precisão o desenho que faz o estreito de Gibraltar. Foi bem único acompanhar o mapa e ver pela janela a cartografia do lugar, com seu contorno tão característico.
Desembarcamos em Fez, em torno das 17h. Um lindo aeroporto. Já falei sobre aeroportos serem os mesmos em Londres, São Paulo, Goiânia, Amsterdã, enfim… Não é novidade que aeroportos ocupem destaque na lista de não-lugares do mundo. No entanto, eu não colocaria o aeroporto de Fez nessa lista. Ornamentado com arabescos e padrões geométricos característicos da arquitetura islâmica, o aeroporto foi o primeiro responsável por me impactar com a sensação de “uau, estou em outro lugar!”.
Ventava forte e gelado enquanto Cal fumava um cigarro e olhava a localização do Hostel. O sol brilhava como nos dias mais iluminados de Londres, um céu limpo, azul clarinho. Muitas flores e colorido na saída do aeroporto.
Um taxista muito simpático nos abordou e fomos com ele. Falou sobre o jogo do Brasil contra Marrocos, que acontecerá na Copa do Mundo (assunto recorrente ao longo da viagem, risos). O rádio ligado, eu ia ouvindo aquelas palavras vazias de significado para mim, enquanto passávamos pela cidade nova, com suas avenidas largas e muitos anúncios publicitários.
Vendo os grandes portais ornamentados que estávamos prestes a atravessar, percebi que estávamos chegando na Medina. Uma luz bonita de fim de tarde iluminava essa travessia. O taxista nos deixou o mais perto possível do nosso Hostel, pois dali em diante não seria possível seguir de carro. Bem pertinho mesmo, menos de 10 minutos andando. Uma profusão de gentes, motos, crianças brincando na rua, a marca da Coca-Cola estampada em alguma parte da lanchonete da esquina.
Um corredor estreito – como é comum dentro da Medina – dá acesso ao nosso Hostel, que fica logo à esquerda. Chegando lá, somos recebidos calorosamente por Abdul, jovem marroquino, um dos responsáveis pelo espaço. Logo depois, conhecemos Micsha, a gatinha do Hostel, que graciosamente aparece no terraço em nossa primeira visita ao espaço.
Pôr do sol. Do terraço vemos os entornos da Medina, lugares que no dia seguinte, sem planejamento, acabaríamos visitando.
Muitas emoções nessa chegada. Um interesse grande em conhecer, um maravilhamento com o diferente (que eu buscava). Também, um receio e uma forte sensação de não pertencer.
Nunca havia me sentido “gringa” em algum lugar, nem em Londres, onde os britânicos, pra mim, continuam sendo “os gringos”. No entanto, em Marrocos, me senti gringa. Mulher branca, com “cara de europeia”, sem saber falar nada além de “Salam”, “Chakram” e “Marhaba”, turista no sentido mais hegemônico possível. Estar vivendo em libras, ter partido do Reino Unido (não do Brasil), e estar acompanhada por Cal, meu namorado, que é inglês, parecem adicionar a essa sensação.
Saímos para comer, muitas pessoas ofertando uma variedade de coisas, comida, principalmente.
Quando visitei Salvador pela primeira vez, lembro de ser um pouco parecida essa abordagem para turista. A minha branquitude também se destacava me colocando nesse lugar de “gringa”. Muitas vezes, vinham me abordando em inglês. Vendendo isso ou aquilo. No entanto, eu logo respondia em português e a sensação de fazer parte se estabelecia, trazendo segurança e conforto. Os corredores estreitos das Medinas em Marrocos me lembravam um pouco do Pelourinho.
Comemos um sanduíche em uma grande praça. Muitos gatos vieram nos pedir comida, um amontoado deles ao nosso redor. Foi lá que ouvi o Adhan[1] pela primeira vez.
Na minha primeira noite em Fez, não consegui dormir. Isso normalmente acontece quando estou viajando, meu corpo costuma estranhar um lugar novo. Como eu já disse, Fez era radicalmente novo, então imagino que essa partezinha animal dentro de mim estava bem em alerta e se recusando a relaxar e confiar que estava tudo bem.
No dia seguinte, meditei para trazer presença e, mesmo “against the odds” devido à noite não dormida, me abri para esse lugar novo.
Foi um lindo dia, com muito sol e 18 graus celsius que mais pareciam 25. O clima perfeito. Tomamos um café da manhã no Hostel: pão, manteiga, mel, geléia, omelete, pepino, tomate, alguma fruta (banana, talvez), chá verde com hortelã e café. O melhor café da manhã que tomei em Marrocos, eu arriscaria dizer. Simples, mas muito gostoso.
Fomos bater perna pela Medina, desvendando seus corredores labirínticos, bordas e entornos. Ainda que radicalmente diferente das paisagens que já conheço, os mercados das Medinas de Marrocos me lembraram muito o Brasil: nossas feiras, com muitas cores e cheiros, gente sorridente e simpática.
Inclusive, que coisa boa responder “Brasil!” quando me perguntavam de onde eu sou. Essa resposta sempre trazia sorrisos e uma recepção calorosa.
Entre os destaques de Fez, visitamos o curtume[2], o Museu de Armas, e um cemitério em uma região bem alta da cidade (me chamou atenção como os cemitérios são comumente localizados em regiões altas nas cidades que visitei em Marrocos).
No Museu de Armas, localizado onde costumava ser o forte de Fez, vimos armas pré-históricas, medievais e modernas. Lendo sobre algumas guerras muito antigas que atravessaram aquele território, fiquei pensando se é possível viver em algum momento histórico onde não existem guerras. Por lá, também vi armas ornamentadas com desenhos florais. Sigo intrigada pela justaposição de algo extremamente agressivo como uma arma e algo tão delicado como uma flor.
Assisti ao filme Palestine 36 na semana passada e me senti muito ignorante ao descobrir que a língua falada na Palestina é a mesma falada em Marrocos. Ainda assim, foi legal reconhecer algumas palavras que, depois da viagem, tinham uma sonoridade familiar, e eu sabia o significado. No filme, vi armas muito parecidas com aquelas que tinham visto no Museu de Armas, com ornamentos bonitos.
Das três cidades que visitamos em Marrocos, Fez, Chefchaouen, e Tanger, Fez foi a que eu mais gostei. Chefchaouen me lembrou Pirenópolis, um pouco. Tanger, me lembrou o Rio de Janeiro e também Goiânia, com avenidas largas muito parecidas com a nossa Avenida Goiás.
Antes de voltar, peguei uma intoxicação alimentar, vomitei no aeroporto, de tão ruim que fiquei. Chegar em Londres foi estranho, porque voltar pra casa parecia ser voltar pro Brasil. Mas foi bom mesmo assim, voltar para o que já se conhece melhor tem algo de acolhedor. Quando chegamos aqui estava um solzão e uns 20 e poucos graus, o clima mais quente que já fez aqui até hoje.
Recebi uma amiga muito querida que me conhece desde bebê. Quando encontro Rozilda parece que sempre encontro aquelas versões de nós que já fomos, ainda somos e ainda vamos ser. Aprendo muito com ela, desde sempre.
Na mesma semana, chegaram os resultados do exame de ancestralidade que eu tinha enviado para análise há uns dois meses. Um mapa grande, que mais parece um mapa dos trânsitos envolvidos na colonização do Brasil do que um mapa de histórias de amor que geraram descendentes. Entre os lugares do meu mapa de ascendentes, Inglaterra e norte da África (Marrocos incluído) aparecem, ainda que com porcentagens pequenas. Gosto de imaginar que tenho transitado por lugares que de alguma forma são parte de mim.
Quando vi uma passagem de 15 libras para Santiago de Compostela, comprei por impulso. Gostaria de conhecer esse lugar que ocupa a maior parte das minhas “parcelas territoriais” do mapa de ancestralidade. O norte da Espanha aparece com 26% no meu exame.
Depois, descobri que já tinha compromisso na mesma semana que programei para essa viagem: a abertura da exposição “Mosaic of Becoming”, em que vou expor a obra “The Weight of One Pound”, que comentei aqui há umas semanas atrás.
Enfim, como diria Jaquelyne, minha psicóloga: “por medo de perder, perdeu”. Fiquei com medo de perder a oportunidade de ir para esse lugar, pois as passagens em outros dias estavam por volta de 100 libras, e comprei por impulso. Acabei perdendo a grana dessa passagem, da hospedagem que tinha reservado, passagem de trem, enfim, um prejuízo. Fiquei triste por ter que abrir mão da viagem, mas muito mais triste por ter desperdiçado dinheiro. Em pounds. Enquanto assistia Palestine 36[3], fiquei pensando nesse “peso da Libra”. Mais precisamente, sobre a raiz colonial que sustenta essa vantagem de poder que a moeda britânica exibe em relação às outras no cenário econômico mundial.
Na última semana fui ao “PMDD Support Group”, grupo de apoio para pessoas com transtorno de disforia pré-menstrual (em inglês: Premenstrual dysphoric disorder), organizado pela ONG “PMDD Project”. TDPM (ou PMDD em inglês) é uma condição que afeta pessoas que menstruam e que, diferente da TPM, tem efeitos bem mais agressivos e com duração em parcelas maiores do ciclo.
Há algum tempo eu venho observado que na segunda metade do meu ciclo meu sono piora muito, bem como meu nível de ansiedade, de disposição, sensibilidade emocional (daria um texto enorme só pra falar disso). Eu também já observei que o período em que isso acontece é MUITO antes da menstruação ser chamada de TPM. Também, com sintomas mais intensos. Foi extremamente acolhedor me ver nos relatos de outras pessoas que participaram do encontro. Relatos sobre a falta de assistência médica (os cursos da área da saúde ainda não ensinam sobre esse transtorno em seu currículos, explicou uma das fundadoras da ONG), sobre a sensação de insuficiência (com a qual me identifico muito!), e até sobre os suores noturnos que eu tenho mas nem sabia ser um dos sintomas.
Eu descobri sobre a existência desse transtorno, em 2023, vendo um vídeo de uma garota, falando em inglês sobre a própria experiência com PMDD, no Tik Tok. Eu me identifiquei com o relato dela e, a partir de então, passei a tomar mais consciência sobre a questão. Cheguei a falar com uma ginecologista sobre o assunto e ela não me ofereceu nenhuma saída ou suporte, falou que era TPM. De 2023 para cá, no entanto, tenho sentido que os sintomas relacionados à condição tem piorado, estão piores hoje em dia do que quando vi o vídeo em 2023. Acompanhando relatos de outras pessoas, vi outras pessoas relatando que a condição vai piorando com a idade (desespero!).
No entanto, mesmo com o desespero e falta de amparo médico, encontrar uma comunidade de pessoas que sabem e sentem na pele as mesmas coisas que eu sinto foi muito importante e acolhedor. Pesquisando sobre a ong PMDD Project, descobri que a mesma garota que fez o vídeo no Tiktok (que eu vi em 2023) era uma das fundadoras da organização. Curiosa essa coincidência.
Só que quem me conhece sabe, eu não acredito em coincidências.
[1] Convocação pública para as orações diárias.
[2] Um curtume é o espaço onde peles de animais são tratadas e transformadas em couro. Em Fez, esse processo ainda é feito de forma tradicional e artesanal, com técnicas que remontam a séculos.
[3]Sinopse do filme: “1936. Enquanto vilarejos por toda a Palestina se insurgem contra o domínio colonial britânico, Yusuf, que tenta construir sua vida para além dessa crescente agitação, se vê dividido entre sua casa na região rural e a inquietude de Jerusalém. Mas a história é implacável. Com o aumento do número de imigrantes judeus fugindo do antissemitismo na Europa e a população palestina se unindo na maior e mais longa revolta contra os 30 anos desse domínio colonial, tudo parece se encaminhar em direção a um conflito inevitável, em um momento decisivo para Império Britânico e o futuro de toda a região.”. Fonte: https://mostra.org/filmes/palestina-36




















