PRIMAVERA EM LONDRES #7, por Daniela Marques
Semana 7.
Aqui se fala muito do clima. Aparentemente não tem esse estigma de ser “conversa de elevador”. Um dia, chegando em casa, uma vizinha abriu a porta e perguntou: “como tá o clima lá fora?”, com muita simpatia. Estava ensolarado, mas mesmo assim, frio. “Frio!”, respondi sorrindo.
Preparar-se para o clima que te espera fora de casa é algo essencial. Tenho aprendido a fazer isso (depois de ter falhado uma porção de vezes). Hoje, esqueci o guarda-chuva em casa. A primavera me fez esquecer da necessidade dele. Não porque faz sol todo dia (não faz!), mas porque agora chove com menos frequência.
Estava indo para o ateliê do professor-artista Mark Farmington. 15 minutos de caminhada depois de descer na estação Mile End, em Hackney. Meu celular, com 20% de bateria. Levei um carregador portátil, então estava tranquila. Depois, descobri que ele também estava sem bateria. Risos.
Um cenário que poderia ser caótico e estressante, mas não foi. Sorte. Não choveu, só garoou. O celular ficou no modo avião durante quase todo meu tempo fora de casa. Gastei um pouquinho de bateria ouvindo o álbum Desire, de Bob Dylan, para abafar a barulheira do metrô e seu relinchar de metais, unhas arranhando paredes dentro da alma.
Estou amando Londres. Mais até do que eu imaginava. Ainda estou entendendo o que, ou porque. Às vezes sinto que não devia gostar, sei lá, parece errado gostar “da terra do colonizador”.
Enfim, a gente não manda no sentir.
Cheguei uns 10 minutos adiantada no prédio onde é o ateliê do Mark. Fiquei lá sentada esperando, sem nada para me distrair. Contemplando os barulhos, a paisagem da rua. Eu até gosto quando está nublado. Me lembra de quando eu cheguei aqui. Que foi nesse lugar que eu cheguei.
Mark desceu, reclamou um pouco que ninguém tinha chegado ainda. Uma atmosfera bem inglesa no jeito dele, meio fechado, foi a primeira impressão que eu tive. No entanto, pense numa generosidade ao compartilhar dos processos e da pesquisa! Que encontro foda!
Ele disse que está há 30 anos no mesmo ateliê. Thirteen or thirty? Eu e uma colega perguntamos, um pouco chocadas.
ThirTY! Ele respondeu categoricamente. Eu só tinha dois anos quando ele começou a ocupar aquele espaço.
Eu queria anotar tanta coisa! Não anotei nada, porque o que fazia mais sentido era estar presente na conversa. A obrigatoriedade de não mexer no celular para não gastar bateria foi uma bênção!
Mark falou muito sobre como a pesquisa, o doutorado, a inserção da arte no contexto acadêmico é algo que restringe. Eu até falei em certo momento que isso é engraçado de se dizer vindo de um professor, risos.
Ele trazia com muita convicção a importância de sustentar um não saber durante o processo, de preservar esse não saber. Ao mesmo tempo, ele explicou que esse não saber não é e nem deve ser absoluto, como se estivéssemos alheios àquilo que fazemos. Tinha muita ambiguidade na fala dele, o que é bem interessante. Ainda estou processando.
Perguntei se essa ideia de responder a uma pergunta deveria ser ignorada. Depois me corrigi, talvez “ignorar” seja muito, mas enfim.
Ele respondeu que o trabalho está respondendo a alguma coisa, mesmo que não saibamos ao quê. Algo sobre dar uma ênfase a esse lugar da resposta que o trabalho traz, sem uma fixidez com relação à pergunta. “Mas e a defesa?”, perguntei também.
Achei interessante a resposta que ele trouxe. “Mais importante do que ter definições assertivas, respostas bem definidas, é mostrar que você sabe o que está fazendo”. Não foi bem assim que ele falou, eu bem gostaria de lembrar as palavras exatas. Mas o que eu compreendi da resposta foi: o importante é conhecer o seu próprio processo, o que o movimenta, quais são as operações que estruturam a prática e os sentidos (sentidos não como significados, necessariamente, mas como direções) que ela vai tomando – foi muito isso que vi na apresentação dele sobre o próprio percurso.
Também, deixar claro o que ainda não se sabe e que há esta consciência das ausências que a pesquisa contempla, lembro-me bem dessa parte da fala de Mark.
Lindo ver o processo de Mark, um percurso de tantos anos, as várias camadas de interesses se desdobrando em coisas diferentes, mas ao mesmo tempo com pontos claramente coincidentes. Fiquei pensando na ideia de “universo”. Por exemplo, o universo de Senhor dos Anéis, de Tolkien. Várias narrativas diferentes acontecendo dentro de um mesmo “universo” criado pelo autor.
Lindo ver o processo de Mark, um percurso de tantos anos, as várias camadas de interesses se desdobrando em coisas diferentes, mas ao mesmo tempo com pontos claramente coincidentes. Fiquei pensando na ideia de “universo”. Por exemplo, o universo de Senhor dos Anéis, de Tolkien. Várias narrativas diferentes acontecendo dentro de um mesmo “universo” criado pelo autor. Várias obras diferentes compondo um universo, o conjunto de processos, interesses e procedimentos do artista.
No prédio onde era o ateliê de Mark havia vários andares, vários ateliês, de vários artistas. Uma colega comentou: “dá vontade de entrar em vários!”, “Sim!!, são como sistemas solares dentro de um universo”, respondi.
Cortei o cabelo essa semana. Odiei, risos. Fiz algo que eu queria fazer, mas tinha medo: cortar uma franja. Mas ok, estou aprendendo a gostar. Melhor do que não fazer nunca e ficar só pensando em como ia ficar.














