Primavera em Londres #6

PRIMAVERA EM LONDRES #6, por Daniela Marques

Semana 6.

Primavera em Londres. Uma semana com vários dias de sol. Todos os dias seria pedir demais, mas o sol que veio trouxe felicidade. É bonito ver o entusiasmo das pessoas, notar o gesto coletivo de tirar um tempo para sentar na praça e ver o sol, em meio ao trânsito do fim do dia. Parece um intervalo, um gap, sei lá, um glitch, um bug na realidade caótica de uma das grandes capitais do mundo. Parar pra ver estrela, um desaceleramento que parece dizer que a cosmofobia[1] do mundo ainda não venceu, não nos venceu por completo. Com o sol, a vontade de estar fora, de fazer coisas, de aproveitar o dia. Amo!

Foi uma semana rica, cheia de acontecimentos, movimentos, fazeções.

Fui ao ateliê de cerâmica e produzi dois moldes. Sigo impressionada, em êxtase, com o calibre da estrutura da universidade. Na semana passada falei da dificuldade em atravessar a barreira cultural e da língua, especialmente no contexto dos ateliês. É interessante ver como os acontecimentos se encaixam. A fala de Rosie, que relatei na última semana (sobre as barreiras que se criam entre as áreas do conhecimento, evitando o diálogo e a interdisciplinaridade), foi muito importante para mudar minha perspectiva sobre como abordar essas interações em ateliê.

Conversei novamente com Beth, responsável técnica pela parte de produção de moldes no ateliê de cerâmica. Além da dificuldade com a língua, não sou da cerâmica, dois fatores que atravessam essa interação. Mas, dessa vez, perguntei mais. Beth foi gentil e até desenhou em alguns momentos. Foi in-crí-vel conseguir fazer um molde completo em um dia. Eu trouxe a ideia da escultura, Beth interpretou como traduzi-la em um molde, mobilizou os métodos, estruturas e materiais que já existiam no ateliê, me deu um passo a passo, além de me auxiliar no como fazer e, em duas horas: um molde pronto, só esperar secar. Fiquei pensando na minha escultura Pedestal, uma escultura em gesso que eu demorei um ano para conseguir desenvolver um molde. Se fosse aqui, com esse aparato todo, em menos de um mês estaria pronta, sem sombra de dúvidas.

Também fui ao ateliê de gravura e de serigrafia. Maravilhosos. Especialmente o de gravura. Lindas prensas de lito! Charlotte, técnica responsável, me recebeu para mostrar o ateliê, muito querida, me mostrou possibilidades em serigrafia que eu nem sabia que existiam (vou fazer e mostro pra vocês!).

Fui ao ateliê de fotografia e produzi fotos que compõem o conjunto de obras do projeto “The Weight of One Pound”. Na mesma semana, recebi a notícia que a primeira parte do trabalho – que consiste em exibir uma balança no espaço expositivo, com uma moeda de um real de um lado e uma moeda de uma libra do outro – foi selecionada para a exposição “Mosaic Of Becoming” de artistas internacionais estudantes da UAL. Fiquei muito feliz!

Para o processo de seleção da exposição, enviei o seguinte texto:

In ‘The Weight of One Pound’, I present an old commercial Indian scale measuring the weight of two different coins: the British pound and the Brazilian real. As a result of this measuring, we can see the scale hanging to the British coin’s side, due to its heavier weight. By displaying the scale with the two coins, my aim is to materialise and make visible the disproportionate power relationship between the Global North and the Global South, and how this expresses itself in the economic field.

The inspiration for producing this work came from my experience of migrating to become a visiting student at the University of the Arts London. I submitted a project to conduct part of my research abroad to a federal research agency in Brazil and, thankfully, I was granted funding that covered my living expenses in the UK. I wasn’t aware, though, of the tuition fees that British universities usually charge, nor that this wasn’t covered by the funding. In Brazil, many universities are public and completely free, including the one where I am pursuing my doctorate.

Converting the fee into reais made the cost feel extremely heavy. This reality was difficult to face. It was a dream to live and study abroad, especially because I had never been outside Brazil before. I thought a lot about giving up, since doing this would mean committing all my life savings. In the end, I decided to come. Going through this raised my awareness of how the economic injustice between the Global North and the Global South – and its colonial roots – can be demonstrably perceived by looking at currency exchange rates.

Na mesma semana, falamos sobre o livro Potential History: Unlearning Imperialism, de Ariella Aïsha Azoulay no grupo de estudos de curadoria. Allison, professora que coordena o grupo (outra super querida!), perguntou para cada um de nós o que andávamos fazendo naquela semana. Contei do “The Weight of One Pound”, e sobre a minha história migrando para o Reino Unido, da dificuldade por ter que pagar a taxa da universidade, especialmente por conta das altas taxas de conversão: 1 libra valendo, quase sempre, 7 reais. Contei que com o que paguei para a universidade daria para comprar um carro. Também, que o que o montante total para a manutenção dos meus custos de vida pago pela CAPES é dinheiro suficiente para pagar metade do valor de um imóvel no Brasil. Fatos que não impressionaram as outras pessoas latino americanas da mesa, que se identificaram com o relato, mas chocou quem é daqui.

Estive na aula aberta de Suzanne Lacy e destaquei algumas falas dela (um evento maravilhoso!):

“Discourse as an artform”

“Practical tools to apply theories”

“Art allows you to explore ambiguities”

“Feminism is never only about women”.

Conheci pessoalmente meus sogros, que são ingleses. Encontro bonito e feliz, que me lembrou que vínculos sinceros e afetivos podem ultrapassar barreiras linguísticas e culturais.

Há alguns anos, provavelmente em 2022, um pato bem diferente apareceu na minha casa. Juro, do nada. Ele voou e apareceu no quintal, a casa tinha um muro alto. Pesquisei sobre a simbologia do pato na época. Algo sobre dinamismo, versatilidade… ele voa e nada.

Hoje, vendo o mesmo tipo de pato nadando no canal de Londres, pensei que: antes de vir pra cá, sonhei com muitas travessias oceânicas e, para chegar, atravessei voando.


[1] Cosmofobia é um conceito de Antônio Bispo dos Santos, discutido em seu livro “A terra dá, a terra quer”.

O que é a cidade? É o contrário de mata. O contrário de natureza. A cidade é um território artificializado, humanizado. A cidade é um território arquitetado exclusivamente para os humanos. Os humanos excluíram todas as possibilidades de outras vidas na cidade. Qualquer outra vida que tenta existir na cidade é destruída. Se existe, é graças à força do orgânico, não porque os humanos queiram.

(…)

A humanidade se desconectou da natureza exatamente por ter cometido o pecado original. Seu castigo foi se afastar da natureza. Por isso Adão foi expulso do Jardim do Éden e o humanismo passou a ser um sistema, um reino desconectado do reino animal. Dentro do reino vegetal, todos os vegetais cabem, dentro do reino mineral, todos os minerais cabem. Mas dentro do reino animal não cabem os humanos. Os humanos não se sentem como entes do ser animal. Essa desconexão é um efeito da cosmofobia.”

https://pernambucorevista.com.br/acervo/inéditos/3106-antônio-bispo-dos-santos-cidades-e-cosmofobia.html