Inverno em Londres #4

INVERNO EM LONDRES #4, por Daniela Marques

Semana 4.

Perguntei que dia passaríamos para primavera, não é dia 23 de março? Cal me respondeu que não é bem assim, vai mudando aos poucos. O que deveria ser óbvio mas, para mim, não é. Poderia justificar a falta de obviedade dizendo que de onde eu venho a diferença entre as estações é muito sutil, o que é verdade. Mas sei que esse anseio por uma transformação repentina não tem tanto a ver com isso.

Não é primavera ainda, nem vai ser completamente quando for marcada a sua “data oficial” de início. No entanto, flores já começam a brotar, timidamente, em meio a tantos galhos depenados.

Cal disse que já está sentindo “cheiro de primavera”. Eu conheço cheiro de chuva, mas não sei o cheiro das estações.

Faz um mês que cheguei aqui. Um mês e 4 dias.

Tenho gostado de imaginar tempos como se fossem gente. Um bebê de um mês já tem menos cara de joelho, eu acho. Já entendeu que está fora da barriga, também suponho.

É essa a idade da minha travessia, um mês. Um ritmo vai se assentando, uma rotina se estabelecendo. Acho que o corpo já começa a aceitar que está fora da barriga.

Entre os destaques da semana:

Ouvi no seminário com a professora Maria Walsh sobre a importância de saber discernir métodos e metodologia.

Participei de uma linda roda de conversa sobre curadoria no Doctoral School, falamos sobre a exposição como meio para congregar diferentes posições de pensar e sentir. Como podemos cultivar a diferença através de práticas curatoriais que rejeitam uma ideia de homogeneidade, de consenso? Foi uma pergunta que se repetiu durante a conversa.

Visitei o Tate Modern pela primeira vez. Peles animais me receberam na entrada do museu. O som que me recebia era ritualístico e mítico. As instalações de Máret Ánne Sara foram as primeiras obras que vi no museu:

“Sámi artist Máret Ánne Sara presents a monumental new sculptural installation in Tate Modern’s Turbine Hall as the tenth Hyundai Commission, an annual program made possible by the long-term partnership between Tate and Hyundai Motor, founded in 2014 and recently extended for another decade until 2036. For this year’s Hyundai Commission, Sara creates a sculptural installation from materials which surround and sustain her community in Sápmi—the territory of the Indigenous Sámi people, spanning parts of Norway, Sweden, Finland, and Russia.

For her first major work in the UK, Sara draws on her lived experience as a member of a Sámi reindeer-herding family to highlight ecological issues affecting her way of life, revealing their broader global significance. Combining hides and bones derived from traditional reindeer herding practices with wood, industrial materials, sound and scent, Hyundai Commission: Máret Ánne Sara: Goavve-Geabbil is an immersive work honouring the reciprocal relationship between the Sámi people, the reindeer, and the land.”[1]

Um trabalho que movimenta questões sobre o desequilíbrio gerado pelo avanço de uma lógica capitalista e neoliberal, patrocinado por uma das principais marcas do setor automobilístico. Como fechar essa equação?

Vi a exposição individual da Tracey Emin, artista com quem me identifiquei um pouco, principalmente pela diversidade de meios com que trabalha e pela maneira como traz as materialidades autobiográficas para a cena.

Visitei a exposição de modernismo nigeriano. Foi interessante ver representações nigerianas de divindades iorubás que também fazem parte da religiosidade afro-brasileira. Fiquei intrigada com a reincidência de histórias de artistas nigerianas/os que ganharam reconhecimento internacional quando vieram para o Reino Unido.

Vi o Urinol de Duchamp ao vivo. Não vou mentir, teve uma emoção contida no “presenciar” deste objeto sacralizado pela história da arte. A forma como ele estava apresentado no museu também ressaltava essa “aura sagrada”, o que achei quase cômico. Vendo ao vivo, entendi melhor que era, realmente, um mictório. Fui ao Brixton. As cores vibrantes nas bancas, uma multiplicidade de cheiros, comida, incenso e gente, certa desordem ornamentada: me senti um pouquinho no Brasil.


[1] https://artlab.hyundai.com/project/hyundai-commission-maret-anne-sara