INVERNO EM LONDRES #3, por Daniela Marques
Semana 3.
Menstruei pela primeira vez em Londres. De acordo com a autora de “Period Power”, um livro sobre o ciclo menstrual que li há um bom tempo, a menstruação é equivalente ao inverno nos ciclos da natureza. Um momento em que a natureza se recolhe, poupa esforços, para realizar a renovação que virá com a primavera.
Interessante pensar nisso estando em Londres, presenciando um inverno mais rigoroso do que os que já presenciei no Brasil. Vendo as árvores sem folhas, completamente secas, e toda uma atmosfera de ausência (ou escassez) de vida que a paisagem apresenta. A menstruação é, de certa forma, também essa ausência. O que sobra depois da não fecundação de um óvulo, da não produção de vida.
Uma amiga veterinária me disse uma vez que não é à toa que a gente fica triste quando menstrua, segundo ela, o corpo está triste porque não produziu vida. Maisie Hill, autora do livro que mencionei, aconselha que, durante este período, seja acolhido o recolhimento que ele convoca.
Nessa semana fiquei frustrada. Uma sensação de que não fiz ou vivi o suficiente. Junto com isso, certa irritação com os limites do meu corpo. Em 2024, quando produzi minha primeira exposição individual, produzi vários trabalhos que, de diferentes formas, endereçaram a questão do tempo, da produtividade, da performance, da pressa. Percebo essa vontade enorme, que se expressa na produção artística, mas também na vida, de compreender como essa pressão por performance e produtividade opera. Disse na terapia que estou numa busca muito séria (e comprometida) por me livrar da pressa, a mudar o que me leva a operar nessa lógica. Parece que quanto mais eu me decido a mudar isso, mais intenso isso aparece. Jaquelyne me provocou de uma forma simples, mas importante (e até engraçada): mas até essa mudança precisa ser pra ontem?
“Por medo de perder, perdeu”, foi o que ouvi na terapia quando contei que, por conta de uma má organização do tempo e da pressa decorrente, não aproveitei bem um encontro com uma amiga que não via há dozes anos, reencontro que estar em Londres me possibilitou (e que eu antecipava como um evento importante).
A usual busca por não perder tempo ganha outras dimensões em uma experiência, um intercâmbio, com data para acabar. Talvez por isso a minha urgência para mudar essa forma de me relacionar com o tempo, agora que estou aqui. Para aproveitar melhor esse tempo. Algo que a pressa me limita de fazer. Simultaneamente, todas essas rotas levam para uma certa escassez internalizada que talvez seja a raiz do que estou procurando transformar.
Escrevi um statement de artista para me inscrever em duas exposições que estavam com edital aberto, sobre o que tenho feito, escrevi que:
“My work is dedicated to the investigation of capitalistic ways of colonizing the unconscious. I work with a mix of media, exploring the appropriation of pre-existing images and objects – which are often related to/part of consumer culture – as one of my foundational practices. I’m interested in making use of the embedded meanings these pre-existing items carry as a means to highlight, mock or disrupt with their established (and pro-establishment) connotations. In doing so, my intention is to shine light on entangled meaning threads around desire, gender and sexuality in relation to capitalism and its colonial roots. “
Tem sido interessante escrever sobre a minha pesquisa artística em inglês. Tem algo de uma objetividade que a língua parece carregar que fornece uma abordagem diferente, que diz coisas semelhantes ao que eu já tinha dito, mas possibilitando outros acessos. Não sei muito bem explicar.
Então eu estou dedicada (ou meu trabalho) à investigação das formas de colonização do capitalismo sobre o inconsciente. Enquanto isso, navego contra as minhas pulsões internalizadas de produção e consumo: de aproveitar o tempo, colocando o máximo de coisas, realizações, experiências, ações, e trocas, dentro do tempo que tenho disponível. Ainda me frustro se o meu corpo reclamar depois de andar um dia inteiro estando menstruada.
Nesse dia que andei muito, fui comprar uma bicicleta, o que acabou não dando certo. Deixei de ir a um evento que parecia interessante na universidade, porque essa parecia a bicicleta perfeita (especialmente pelo preço, risos). No fim, acabou que ela ficou grande pra mim e a caminhada longa foi em vão. Por medo de perder, perdi mesmo assim.
Para não perder tudo e fazer algo que contasse como conquista naquele dia, andei mais (afinal já estava perto mesmo) e fui a pé na Central Saint Martins. Foi a primeira vez que entrei nesse campus. Queria imprimir duas fotografias minhas para pendurar em casa, mas o espaço de impressão da faculdade já havia fechado. A quest por fazer valer a pena continuou: fui à biblioteca procurar livros interessantes.
Encontrei. Eram muitos (fotos distribuídas por aqui). Levei para casa três: “Shopping with Freud”, de Rachel Bowly, “Gender and the politics of time”, de Valerie Bryson, e “Knowing Capitalism” , de Nigel Thrift.
Interessante ter feito essa busca na Central Saint Martins, unidade da UAL com um grande destaque para a área de moda, depois de ter escrito o statement de artista. Na seção de “Consumer Culture” foi onde encontrei uma porção de livros que pareciam dialogar com proposições que eu trouxe no statement.
No primeiro capítulo de “Shopping with Freud”, Rachel Bowly analisa a obra “O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, relacionando a obra ao desenvolvimento da relação entre estética e consumo. Dorian, o jovem esteticamente perfeito, seria, sob a ótica de sua análise, o protótipo ideal do consumidor narcisista. Alguém capaz de viver a fantasia de ter ou fazer o que quiser, sem restrições ou consequências.
Rachel traz uma citação de Walter Pater, do livro “The Renaissance: Studies in Art an Poetry”, de 1893. Somando à ideia de que a vida é apenas um intervalo que precede a morte inevitável, a citação que diz que:
“our one chance lies in expanding that interval, in getting as many pulsations as possible into the given time. Only be sure that it is passion, that it does yield you this fruit of a quickened, multiplied consciousness“.
Isso me lembra um pouco do que Billy Joel canta em “Vienna”:
“Slow down, you crazy child
You’re so ambitious for a juvenile
But then if you’re so smart
Tell me why are you still so afraid? Mm
Where’s the fire, what’s the hurry about?
You’d better cool it off before you burn it out
You’ve got so much to do
And only so many hours in a day, hey
But you know that when the truth is told
That you can get what you want
Or you can just get old”
Por aqui, é um sábado à noite. Hoje, escolhi ficar em casa e não fazer grandes planos. Li um capítulo de um desses livros, estou escrevendo isso agora. Tentando acolher o inverno em mim.










