Compartilharemos, a partir de hoje, os registros enviados diretamente de Londres pela doutoranda Daniela Alves Marques, que nos contará semanalmente sobre sua experiência como doutoranda bolsista do programa PSDE/CAPES no exterior, vinculada à University of the Arts London.
Em 2025, Daniela concorreu ao Edital nº 17/2025 – Programa CAPES/PDSE, sendo uma das 40 (quarenta) pessoas contempladas na UFG e figurando entre as 2.061 (duas mil e sessenta e uma) candidaturas aprovadas em 2025 em nível nacional.

A pesquisa de doutorado de Daniela Marques está vinculada à linha de pesquisa Poéticas Artísticas e Processos de Criação do Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual (PPGACV/FAV/UFG) e à Linha 1 – Materialidades e Imaterialidades Auto/Biográficas nas Poéticas Artísticas e Processos de Criação do grupo de pesquisa NuPAA/UFG/CNPq. Tem como objetivo geral investigar poéticas e processos artísticos que buscam desemaranhar sentidos na relação entre capitalismo e inconsciente.
Saberemos um pouco mais sobre os desdobramentos dessa investigação ao acompanhar os relatos e reflexões de Daniela sobre sua primeira experiência acadêmica no exterior, que se estenderá até meados de julho de 2026 e certamente contribuirá profundamente para sua prática e pesquisa na área de Artes.











INVERNO EM LONDRES #1, por Daniela Marques
Semana 1.
Cheguei em Londres no dia 05 de Fevereiro. Uma quinta, às 7 e pouco da manhã. Minha primeira vez fora do Brasil. Tecnicamente, a segunda, depois de uma escala em Amsterdã. Obviamente, não vi quase nada da capital holandesa. Ainda assim, olhar a paisagem da cidade pela janela do avião inaugurou a sensação de estar em um lugar radicalmente diferente daquele de onde eu vim. Nada de interessante sobre aeroportos. Goiânia, São Paulo, Amsterdã ou Londres, todos com a mesma cara e os mesmos gestos. Caminhadas por duty frees e lojas de grife, plus a persistente monotonia de uma paisagem caracterizada pelo trânsito.
Uma curiosidade enorme de ver fora dessa paisagem neutra. Cheguei em Londres. Ufa, saímos do aeroporto. Agora, metrô. UAU. Agora sim, em terra, olho pela janela. Estou em OUTRO lugar. Muito, muito outro. Clima clássico londrino, nublado. Friozinho de fim de inverno. Talvez 8 graus. Uma segunda pele, uma camiseta, uma blusa de lã, uma jaqueta e uma calça jeans e um cachecol. Fora o impacto da diferença de temperatura saindo do avião, tudo bem.
A Daniela de 2023, que no primeiro ano do doutorado, já sonhava com essa travessia, ainda não acreditava com tanta força que ela ia acontecer. Imagine, então, a Daniela de 2013 que, na graduação, tentava ir para Budapeste (sem sucesso) através do Ciência sem Fronteiras. Em 2013, o governo federal limitou as áreas contempladas pelo programa, e passou a enviar somente estudantes de áreas mais diretamente ligadas a uma premissa desenvolvimentista que o CsF contemplava (engenharias, tecnologias, etc.). Humanidades e afins, como o curso de Publicidade e Propaganda, em que me graduei, não compunham a química do fermento certo para o crescimento do país.
A Daniela de 2024 queria muito, MUITO, ir pra São Paulo. E nesse sonho ela acreditava. Mais “pé no chão”, como diria minha mãe. Mesmo assim, quando soprei as velinhas do meu aniversário de 31 anos, no fim deste ano, pedi para ir para São Paulo. Amarrei uma fita de senhor do bonfim no meu tornozelo com o mesmo pedido. Estranho pedir para o mistério me presentear com algo que eu, por conta própria, já havia viabilizado. Durante um ano, juntei dinheiro para viver uma temporada na capital paulista. Estava tudo certo para essa ida. Por que, mesmo assim, eu ainda duvidava e pedia para o universo me levar até lá, eu ainda não sei.
São Paulo também foi um sonho de uma Daniela bem mais jovem, adolescente, que queria estudar na USP e viver a intensidade prometida pela maior cidade da América do Sul. No caminho para São Paulo, já de mudança, o motorista de ônibus, um querido, me perguntou o que eu fazia. Sou artista, eu disse. Ah, namorei uma moça que era artista também, bonita assim que nem você, hoje em dia ela mora em Londres!, ele me falou. Esse “hoje em dia ela mora em Londres” chegou em mim com um calafrio que, naquele momento, eu não entendi, mas reverenciei como uma mensagem do destino. Afinal, Londres já estava no meu circuito de paisagens desejadas.
Em muitos sentidos, São Paulo me trouxe e me preparou para Londres.
Aqui, corre-se como em São Paulo, e também é preciso deixar a esquerda livre nas escadas rolantes do metrô. Em São Paulo, fez pouco sol em 2025, quase tão pouco quanto faz aqui. Não sei se existe uma palavra em inglês para o que chamamos de garoa, mas também vi garoar em Londres. Um pouco diferente é essa chuva insistente que não é fina nem grossa, tantinho irritante, que te obriga a sair sempre com um guarda-chuva (just in case!). Em São Paulo, por uma boa parcela do ano, fez 7, 8 graus, como está fazendo aqui. Passei um frio desgraçado na capital paulista. Foi chato, mas me ensinou como não repetir a dose no hemisfério norte. Comprei casacos e uma boa bota.
Chá e biscoito, tenho que parabenizar os ingleses por essa combinação maravilhosa. Especialmente nesse friozinho. Digestives de chocolate e Yorkshire Tea amo vocês. Tem sido interessante viver aqui no inverno. O cinza do céu, de algum jeito, vai bem com a atmosfera da cidade. Não se trabalha até tarde e, de um modo geral, a universidade fecha às 18h. Em ponto. Then it’s tea time. Aqui a janta – que eles chamam de tea, igual a gente chama café da manhã de café – é mais importante que o almoço e um full english breakfast te deixa full até a janta!
Consegui o meu ID Card para acessar a universidade no dia 13 de Fevereiro, uma sexta-feira. Antes disso, era esquisito tentar acessar os lugares (mesmo que fosse só para pedir informação). Alguém me disse que eu não deveria estar dentro de um prédio sem essa carteirinha (que, agora, eu carrego junto com as chaves de casa). Hoje, uma segunda-feira, começo minhas atividades, oficialmente, como uma Visiting Student. Sérgio, responsável pelo setor de pesquisa da Chelsea College of Arts, um querido, me deu um tour pelos espaços de ateliês coletivos, biblioteca, entre outros. Mundos e mundos para explorar, uma estrutura chiquérrima que faz a gente (que, muitas vezes, faz tanto com tão pouco) se sentir numa espaçonave. O que sentiria alguém daqui ao visitar nossas universidades? Sergio me perguntou o que eu achava da faculdade, se era muito diferente, se era melhor. Eu respondi que sim, diferente e, de certa forma, melhor, por ter mais recursos, mas lá não precisa de carteirinha para acessar os espaços. Estando aqui, parece até utópico o que temos no Brasil, universidade gratuita. Espaço livre, onde todos acessam.
Não sei até quando meus relatos serão em esquema comparativo. Também não sei se é possível não comparar. No entanto, deixando um pouco de lado as balanças e réguas, também procuro simplesmente estar onde estou. Reconhecendo as belezas de estar aqui, permaneço honrando as belezas do lugar de onde eu parti.